Quando os problemas definem a narrativa: reflexões sobre os incentivos à sustentabilidade na agropecuária brasileira
Renata Bueno Miranda e Raul Almeida Moraes Neto
Toda sociedade organiza seus esforços para enfrentar problemas, e é justamente essa capacidade de superação que move o ser humano e impulsiona o avanço da ciência, das políticas públicas, da inovação e das próprias instituições. A história da agropecuária brasileira reflete esse mesmo percurso, marcado pela superação de sucessivos desafios relacionados à produtividade, à segurança alimentar, ao uso da terra e, mais recentemente, à sustentabilidade ambiental.
Dessa trajetória nasceram importantes instrumentos de monitoramento, comando e controle, regularização ambiental, recuperação de áreas degradadas, rastreabilidade, assistência técnica e financiamento da transição, que contribuíram para consolidar uma das agropecuárias mais produtivas e tecnificadas do mundo. Entretanto, a mesma lógica que impulsiona a superação de problemas também produz um efeito menos evidente. Quando a atenção institucional permanece concentrada, por longos períodos, na identificação, no monitoramento e na correção das não conformidades, estas deixam de representar apenas o objeto da atuação institucional e passam, gradualmente, a definir a narrativa sobre o setor. A sustentabilidade passa, então, a ser interpretada predominantemente por seus passivos, em detrimento do conjunto de capacidades, ativos e resultados que caracterizam a realidade da agropecuária brasileira.
À primeira vista, essa concentração de foco pode parecer apenas uma metodologia de trabalho para resolver problemas de forma mais eficiente. No entanto, à medida que se consolida, ela passa a influenciar a forma como interpretamos a realidade, organizamos prioridades e distribuímos incentivos. Esse mecanismo, que nasce de uma busca legítima por superação, pode também viciar a leitura do conjunto, fazendo com que a exceção receba mais atenção do que a regra e passe a orientar decisões públicas, privadas e institucionais. Quando isso acontece, a sociedade corre o risco de tomar decisões sobre a agropecuária brasileira a partir de seus desvios, e não da realidade mais ampla que caracteriza o setor.
Evidentemente, ilegalidades e passivos ambientais precisam continuar sendo enfrentados com rigor. Isso não está em discussão. O ponto de reflexão é que, mesmo em um contexto no qual os principais estados produtores concentram milhões de hectares preservados em imóveis rurais privados, uma agropecuária altamente competitiva e um contingente majoritário de produtores comprometidos com práticas sustentáveis, a narrativa pública permanece fortemente associada à não conformidade. Esse processo produz efeitos que vão muito além da comunicação, porque altera a relação entre sociedade e produtores, amplia custos reputacionais para o país e dificulta que atributos positivos da agropecuária brasileira sejam percebidos como ativos estratégicos. A sustentabilidade deixa de funcionar como elemento de diferenciação e passa, muitas vezes, a ser compreendida apenas como mecanismo de mitigação de riscos. Com isso, certificações, marcas de origem, mercados premium, pagamento por serviços ambientais, crédito diferenciado, mercados de carbono e outros instrumentos baseados em ativos intangíveis passam a operar sobre uma base reputacional mais frágil. Como esses instrumentos dependem, essencialmente, de confiança, uma narrativa concentrada nos problemas torna mais difícil construir essa confiança e convertê-la em valor econômico. Forma-se, assim, um ciclo de retroalimentação negativa em que a atenção concentrada na não conformidade fortalece uma narrativa centrada no risco, que direciona a maior parte dos incentivos para a correção de passivos. Os agentes passam a responder a esses sinais, produzindo novos dados, novos projetos e novos mecanismos voltados aos mesmos problemas. O resultado é um ambiente institucional sobrecarregado de iniciativas para combater ilegalidades, mas que oferece relativamente poucos mecanismos capazes de tornar visíveis e economicamente relevantes os ativos já existentes. A conformidade permanece presente, invisível, gerando menos valor do que poderia.
A próxima etapa da sustentabilidade da agropecuária brasileira exige um salto de percepção. Para a ilegalidade, o instrumento continua sendo o comando e controle. Para aqueles que se encontram em processo de adequação, permanecem fundamentais a assistência técnica, a regularização e os instrumentos de transição. Mas há um espaço muito mais amplo, ainda subaproveitado, que precisa ocupar o centro de uma nova agenda: a valorização estruturada da conformidade, da excelência produtiva e dos ativos socioambientais que já sustentam grande parte da agropecuária brasileira. Quando o olhar coletivo deixa de ser orientado predominantemente pela exceção, a narrativa passa a refletir com maior fidelidade aquilo que caracteriza a realidade do setor. Essa mudança altera a reputação construída em torno da agropecuária brasileira e fortalece a credibilidade necessária para que certificações, marcas, diferenciação comercial, crédito, pagamento por serviços ambientais e outros ativos intangíveis passem a gerar valor de forma consistente.
A mudança de narrativa, portanto, não produz apenas um efeito de comunicação; ela modifica o ambiente econômico sobre o qual esses instrumentos se desenvolvem. A sustentabilidade continuará exigindo firmeza no enfrentamento das ilegalidades, mas o avanço da agropecuária brasileira dependerá, cada vez mais, da capacidade de reorganizar os incentivos em torno daquilo que melhor representa sua realidade. Os produtores que atuam dentro da legalidade e investem continuamente em melhoria já demonstraram estar preparados para responder a ambientes de reconhecimento, segurança jurídica e agregação de valor. Os bons exemplos sempre exerceram um poderoso efeito de mobilização social e econômica. Ao torná-los mais visíveis e economicamente relevantes, cria-se um ambiente capaz de atrair, com maior legitimidade e eficácia, aqueles que ainda permanecem em processo de transição. Mais do que substituir a agenda da não conformidade, trata-se de restabelecer o equilíbrio entre corrigir desvios e reconhecer virtudes, permitindo que a sustentabilidade deixe de ser percebida apenas como resposta ao risco e passe a constituir uma estratégia de construção de valor para a agropecuária e para o Brasil.
Renata Bueno Miranda é Facilitadora do movimento Vozes da Pecuária
Raul Almeida Moraes Neto é pecuarista e membro do conselho gestor do movimento Vozes da Pecuária